Natureza, Civilização, Desenvolvimento e Consumo: As Amarras do Tempo na Produção do Espaço…

O olhar geográfico sobre o outro não se desenvolveu tanto na prática quanto na teoria. Na teoria já há uma preocupação em tentar não ser determinista, em valorizar o outro, em reconhecer o papel da divisão internacional do trabalho na produção do espaço etc. No entanto, a prática de quem produz informação sobre algum lugar não teve grandes avanços se observarmos as mudanças na forma de enxergar o mundo ao longo do tempo. Basta pegarmos algumas das correntes de análise mais proeminentes em cada época.

No século XVIII, triunfou o naturalismo que nasceu na Era das grandes navegações. Visitar a China nessa época era uma oportunidade de catalogar as diferenças nos aspectos naturais, ao mesmo tempo em que se valorizavam algumas dimensões românticas de cada lugar. Uma grande novidade para uma Europa que acreditava ser o ecúmeno enquanto o mundo desconhecido era perigoso e tórrido em algumas partes entre os trópicos.

No século XIX, veio a noção de organismo e as comparações mais descaradas. Qual sociedade conseguiu evoluir mais a partir dos recursos naturais que dispunha? Prevaleceu o determinismo ambiental e histórico. A raça ideal. A cultura mais civilizada. Quem era e quem não era civilizado no mundo? Era a pergunta que a Europa “civilizada” fazia ao olhar as paisagens do mundo e estabelecer regiões. Não a toa quase toda a Europa Ocidental pegou sua fatia da China para devorá-la e “civilizá-la”.

No século XX, o mundo assistiu a derrota do determinismo ambiental com a derrota dos impérios europeus e asiáticos com as duas grandes Guerras Mundiais. A emergência das superpotências, EUA e URSS, trouxe ao jogo geopolítico um reposicionamento do conceito de desenvolvimento. Quantificar. Quantificar os recursos naturais, a riqueza, a pobreza etc. Quantificar para denunciar o capitalismo ou para capitalizar alguma região. A China torna-se a República Popular da China (governada pelo partido Comunista)

Século XXI. Ainda na inércia do triunfo neoliberal do final do século XX, a idéia de desenvolvimento se foi. Deu lugar a conceito de crescimento econômico baseado no aumento do poder de consumo que só é possível, de acordo com os sacerdotes da fé neoliberal, através da livre-iniciativa. Deng Xaoping coloca a China nesse movimento ainda na década de 70 quando disse: “Não importa a cor do gato, o importante é que ele pegue os ratos”. As regiões passam a ser diferenciadas pelo seu grau de consumo. A China depois da Coca-Cola é regionalizada pelo seu poder de consumo na economia global, ou a sua quantidade de usuários.

Os jovens chineses necessitam libertar-se das amarras do tempo. A passividade de ser “descoberto” é algo que não cabe mais no século XXI. O nacionalismo atual é a resposta temporal dessa passividade. O século XXI é o século do espaço. Criar espaços de sociabilidade é o caminho adequado para essa época, pois acaba com a passividade que alimenta o nacionalismo, e abre uma porta para que o jovem ative uma mensagem de esperança na construção do universo social.