A vitória de Barack Obama é a prova mais cabal de que o espaço é o principal dilema desse início de século. A globalização trouxe consigo a simultaneidade dos eventos que acontecem no mundo. Diferentemente de um jornal impresso que pode recolher uma série de acontecimentos e coloca-los no final de uma só edição, uma página virtual pode colocar em uma mesma tela eventos que estão acontecendo em diferentes lugares, com diferentes tempos, em um tempo único, ou o chamado “tempo real”.

O tempo real como visto hoje é um tempo acelerado, na medida em que somos expostos a múltiplos acontecimentos, a contrapartida tem sido o desfibramento de nossos próprios referenciais frente à imposição de um novo que nos é estranho, e que muda rapidamente, a todo o momento. Isso acontece porque nos relacionamos apenas com tempo dito único, e que é artificial, sem espírito. Na prática, diferentes tempos têm sido encaixotados no tempo padronizado das grandes corporações do mercado, sobretudo aquelas do ramo da comunicação. Eis o tempo real, mas que não é real.

A conseqüência básica desse contexto é que a força dessas redes fluídas de informação nos rouba nossa identidade territorial, as relações com nosso entorno geográfico. Daí que em meio a uma desterritorialização vertiginosa tantos defenderem a tese de que o espaço já era e que os geógrafos devem procurar uma outra profissão. No entanto, é inegável o fato de que as pessoas desterritorializadas vão novamente fixar-se no espaço construindo novas identidades territoriais. Só que a forma como as pessoas se fixam no território mudou nesse século XXI.

O século XX, como também nos séculos anteriores, foi o século do tempo, e a ideologia foi o seu principal instrumento de intervenção espacial. Nacionalismo, Desenvolvimentismo, Guerra Fria, Hippies, Yuppies, Comunismo, Macartismo, e ainda pegando um pedaço do século XXI, “Guerra contra o Terror”. A equação básica era: realidade igual à ideologia mais tempo. Os sinais de decadência desse modelo ficaram evidentes na letra melancólica de Cazuza em fins de século: “Ideologia, eu quero uma para viver”.

Identidade. Meio Ambiente. Crise Econômica. Terrorismo. BRIC’s. Violência Urbana. Trabalho. Petróleo. Comida. A complexidade dessas ansiedades no mundo atual, que acontecem de modo simultâneo, torna verdadeiramente impossível o papel ubíquo da ideologia. Porque a velocidade do tempo real desconsidera totalitariamente a miríade de tempos individuais e locais (o velho duelo moderno entre objetividade x subjetividade). O resultado é um distanciamento da realidade.

Nos logos de suas campanhas, Obama e McAin fizeram apostas diferentes. A bandeira dos Estados Unidos na forma de um campo com o sol no fundo (espaço – trabalho – identidade), no logo de Obama, e o uso de uma estrela (ideologia – tempo – liderança) no logo de McAin, diz muito sobre suas respectivas formas de compreender a realidade.

Obama apostou no espaço. Ele conseguiu mostrar que o mundo longe e complexo tem implicações no espaço banal vivido por todas as pessoas. Muitos mal sabem por que os EUA estão no Iraque, e nem imaginam o que seja exatamente o aquecimento global, mas perceberam que isso influencia as suas vidas independentemente do que fazem ou crêem. Os jovens, com sua incrível capacidade de perceber a realidade decorrente de um momento vital em suas vidas de construção de identidade se sentiram representados por alguém que tanto se aproximou a realidade.

McAin com seu lema: “Country First” apostou no tempo. Mostrou em sua campanha que o problema dos americanos estava em alguns lugares do mundo como o Iraque. Sua proposta de que os americanos só deveriam sair do Iraque com a vitória baseou-se numa ideologia moralista. Quanto mais as pessoas ouviam Obama mais evidente ficava o distanciamento de McAin em relação à realidade.

McAin estabeleceu em sua campanha pontos ao redor do mundo a serem vencidos pelos EUA como condição básica para redesenhar a geografia política do mundo, e a ideologia cumpriria um papel mobilizador fundamental. As semelhanças com Bush são inconfundíveis: “Eixo do Mal”, “Guerra contra o Terror”, criminalização dos islâmicos etc. McAin escolheu Sara Palin para vice. Uma ideologia plástica personificada no corpo de um espírito sem vida.

Obama não estabeleceu obstáculos a serem vencidos. Disse simplesmente que o que acontece no Irã, Wall Street, China, Iraque ou Amazônia tem haver com quem é você. Reformou a crença na democracia, na política e em espaços de sociabilidade que sejam capazes de gerar outros tipos de ambições, assim como em sua experiência na universidade. Obama escolheu como vice John Biden, um especialista em relações internacionais.

O espaço não nasceu ontem, o tempo não perdeu sua importância e a ideologia não é algo que alguém possa despir-se. Mas há que se concordar que as pessoas hoje querem ter uma experiência espaço-tempo (in)tencional antes de delimitar suas ideologias e fixar-se ao espaço, e Obama soube explorar isso. Até agora o único líder conhecido que discordou suavemente (desferindo uma piadinha) da eleição de Obama foi Silvio Berlusconni. Vale lembrar que além de primeiro ministro da Itália ele também é um magnata do ramo corporativo das comunicações.