“No Final dos anos 1960, os frades dominicanos, envolvidos na luta contra a ditadura militar no Brasil, foram expressão da mudança de rumos da organização popular na sociedade brasileira. O Brasil vivia dois conflitos: a economia em mãos estrangeiras e o Estado em poder de autocratas militares. Partindo de uma nova maneira de ler a Bíblia e da preocupação do que significaria ser cristão naquela conjuntura, abandonando a antiga dualidade entre fé e vida, a ordem dos dominicanos se tornou o embrião de movimentos populares. Durante o golpe militar, esses movimentos foram vistos como laboratórios de idéias comunistas e seus participantes perseguidos pelo regime autoritário; no entanto, a população encontrou entre eles a sua voz. “Quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista.”  (Dom Helder Câmara).
Em 2007, 124 países em todo o mundo cresceram mais de 4%. E dezenas de grandes países cresceram o dobro da taxa dos Estados Unidos. Tal contexto pressiona decisivamente nossas idéias sobre desenvolvimento e empreendedorismo social nesse início do século 21. Não é necessário ter muita imaginação para ver onde vai dar tudo isso. Uma incrível mobilidade populacional e uma explosão urbana embarcadas num paradigma de desenvolvimento arcaico onde o que é moralmente certo é determinado pela demanda.
Me parece que as instituições do terceiro setor ainda não perceberam isso. Suas páginas na internet ainda são coloridas, com imagens de culturas “rústicas”e de pessoas pobres. É um trabalho bonito, que faz bem a alma, capta dinheiro no mundo inteiro e alcança resultados difusos. Muitos de seus financiadores ou donos são especuladores, o próprio George Soros têm uma instituição na África do Sul. Ao mesmo tempo, as corporações privadas primam por ser engenhosas nos seus objetivos. A questão é ser sério, construir coisas positivas e fazer o máximo com os recursos de que dispõe.
A cara do empreendedorismo social hoje deveria ser a cara de uma engenharia social como bem explica Gilberto Freyre em seu livro Homens, engenharias e rumos sociais. Para ele, a engenharia social “cuida das inter-relações de ordem social entre homens uns com os outros e de métodos com instituições de várias espécies dentro de uma sociedade humana.”
O empreendedorismo social necessita focalizar seu trabalho sobre a identidade e vocação das pessoas, sem reducionismos de classe e com resultados. Ajudar quem precisa não é ruim, mas é difícil acreditar que isso é a solução. Jovens que não conseguem definir sua identidade, sua vocação, sua missão estão em todas as classes. E são esses que quando não conseguem compreender a quantidade de informação que corre pelo mundo, se voltam para um exclusivismo territorial, põem a culpa de sua frustração nos imigrantes e elegem péssimos líderes políticos.
Num mundo de preferências, o empreendedorismo social eficiente toma decisões com base em informação e compete inevitavelmente com o mercado, pois este quer privatizar a identidade e a vocação das pessoas enquanto o empreendedorismo social pode preparar jovens para liderar suas vidas, ampliar seu espaço, seu tempo e livrar-se de uma identidade presa a um entorno espacial e temporal imediato. Parafraseando Dom Hélder, se dou um prato de sopa a um refugiado ou ajudo uma criança pobre a estudar me chamam de “santo”, mas se pergunto porque não temos resultados dizem que eu sou racional demais e que não me preocupo com quem passa necessidades. 

 

“Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus os criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou e disse: Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra.” Gênesis 1:27-28.