Nos últimos três meses a queda nos estoques chineses de soja fez a cotação subir 20%. Os argentinos estão produzindo, mas não prometem muito. A bola sobrou para o Brasil, que espera ver a crise de longe nesse setor de commodities. A capa da Exame de fevereiro estampa: “Todos Olham para a China”.

Há muita gente de olho na China, mas fatos como esse podem mudar em muito o modo como as pessoas, sobretudo os jovens olham as coisas por aqui. Apesar do propalado imenso território brasileiro, apesar do país ser conhecido como o “celeiro do mundo”, com grandes áreas agricultáveis disponíveis, enfim, apesar disso tudo, muitos empresários do ramo de soja estão expandindo os seus negócios para dentro da Bolívia e do Paraguai. É que se por aqui o espaço é grande, nos vizinhos o preço é pequeno, pelo menos o preço em dinheiro da terra. Já os preços social e diplomático…

Esses vêm custando caro ao governo brasileiro. A exploração de terras nos países vizinhos vêm gerando estranhamentos diplomáticos, movimentação de tropas militares do Brasil na fronteira, conflitos entre cidadãos paraguaios e brasileiros, pobreza nos vizinhos, etc. A edição de fevereiro do Le Monde Diplomatique Brasil estampa na capa: “Imperialismo Brasileiro”. De acordo com a reportagem o Brasil está se transformando numa espécie de “EUA” da região. Exagero? Não é bem essa a questão.

O Brasil importou instituições do norte da Europa ao longo dos séculos, e tentou estabelecer no sul do globo uma espécie de Suécia Tropical. Às rejeições do espaço tropical a essas instituições, estabelecia-se políticas públicas de adequação que podem ser conferidas na história como a Guerra de Canudos, a Sudam, a Sudene, as políticas de integração nacional da ditadura militar, o bolsa família, “pé na porta” nas favelas etc. Sempre ações complementares de adequação às instituições importadas.

Obviamente, se importamos soluções européias, também importamos o seu contrário, as formas de contestações européias frente as suas instituições. Somos imperialistas, mesmo? A originalidade do jovem brasileiro se dá também sobre o território brasileiro. É uma originalidade emergente que vem se construindo e se deslocando das instituições tradicionais. É uma nova visão de Brasil também! Ele se preocupa com a qualidade de vida em sua cidade, com a Amazônia, mas falta informação sobre o Brasil. Onde está o terceiro setor, a educação pública, nesse gap entre a noção ultrapassada de Brasil e o jovem que está se construindo hoje? Buscar a solução na China ou lutar contra o “imperialismo brasileiro” não vai ajudar muito, a menos que estejamos na década de 1970.