Com o fim da URSS os povos da Rússia confiaram que a chegada da democracia traria consigo uma economia mais saudável e uma vida com um pouco mais de conforto. Entretanto, milhões de pessoas apenas acompanharam de longe mudanças pontuais. A despeito disso, a população passou a trocar a democracia por crescimento econômico, e líderes tiranos como  Vladimir Putin chegaram ao poder.
Num mundo globalizado em que a linguagem matemática do crescimento econômico salta aos olhos de qualquer um, casos como o da Rússia, fazem parte de uma tendência mais do que consolidada. Na França, Sarkozy chegou ao poder com um discurso semelhante, colocando também a culpa do revés neoliberal do país sobre os ombros dos imigrantes.
O utilitarismo de uma geração que busca sua identidade no volume de consumo, num mundo de infinitas preferências, conduz esses oportunistas ao poder. Eleitos como justiceiros das injustiças econômicas, como “líderes fortes” comunicam uma mensagem enraizada numa pressuposição frágil que defende a paz interior e a prosperidade de bens como absoluto humano. Frágil porque, quem se fez politicamente com as alturas dos preços do barril de petróleo nos últimos anos, se vê incapaz de manter a democracia calada como vinha fazendo, com a queda nos preços do barril.
Se nossa identidade está no que consumimos. E se o que consumimos são as mesmas coisas em todo o mundo, as fronteiras parecem desaparecer. Mas, ao que parece, nossas pressuposições frágeis são matéria-prima para aqueles que trabalham com as fronteiras.