“Primeiro que tudo vejo cavalos, liteiras e coches; vejo criados de diversos calibres, uns com libré, outros sem ela; vejo galas, vejo jóias, vejo baixelas; as paredes, vejo-as cobertas de ricos tapizes; das janelas ao perto jardins, e ao longe quintas; enfim, vejo todo o palácio e também o oratório; mas não vejo a fé. E por que não aparece a fé nesta casa? Eu o direi ao dono dela. (…) Se as pedras da mesma casa em que viveis, desde os telhados até os alicerces estão chovendo os suores dos jornaleiros, a quem não fazíeis a féria e, se queriam ir buscar a outra parte, os prendíeis e obrigáveis por força, como se há de ver fé, nem sombra dela na vossa vida?” (Padre Antônio Vieira½Sermão do Quinto Domingo da Quaresma, 1655).
Controle. Controle sobre as pessoas sobre o território. Eis o holograma do líder brasileiro que permanece ao longo dos séculos e que é tão bem identificado no sermão do Padre Antônio Vieira como a situação que tomou o lugar da fé.
Engana-se quem pensa que as capitanias hereditárias que conseguiram prosseguir o fizeram apenas pelas suas riquezas. Obviamente, as riquezas produzidas por uma capitania como a de Pernambuco foram absurdamente grandes, mas o que pode ter definido o prosseguimento dessa capitania em meio a muitos fracassos de capitanias vizinhas foi a capacidade de alguns donatários de exercer o controle sobre escravos, índios e homens brancos pobres sobre um território. Os desafios do território brasileiro em conjunto com a formação de novos povos, o cabloco, o gaúcho, o caipira, etc. forjaram um modelo de líder que tem seu reconhecimento na capacidade de controlar o seu “feudo” a todo custo. Isso lhe confere status social, sem necessariamente estar relacionado com o trabalho e a  produtividade de seu empreendimento.
A partir da década de 1980 há um descolamento desse paradigma. Com a redemocratização, o grupo dos líderes tradicionais se refugia na política nacional deixando o comando das empresas nas mãos de uma nova geração. Em reportagem especial, a revista EXAME de 10/10/2007 divide essa nova geração em três fases:

– Os pioneiros: essa primeira geração chegou a presidência das empresas na década de 1980. Até então, o cargo era exclusividade de expatriados ou dos donos, no caso de companhias familiares. Chegavam ao cargo por conhecimento técnico ou muitos anos de casa. Tinham como desafio equilibrar níveis altíssimos de inflação com uma política de controle de preços pelo governo.
– Os reestruturadores: Na década de 1990, tinham a missão de resistir à invasão estrangeira com medidas como cortar níveis hierárquicos. Chegavam ao cargo pelo conhecimento de técnicas de enxugamento da produção e capacidade de promover mudanças rápidas.
– Os expansionistas: Os atuais. Sua ênfase é buscar novas oportunidades de negócios e tirar proveito de fornecedores dentro e fora do país. Chegam ao cargo pela experiência internacional, MBA e habilidade para liderar equipes.

Passados, quase trinta anos, somente a geração mais atual têm um foco mais decisivo na capacidade de liderar pessoas ao invés de controla-las. Sendo que, o modelo de liderança em diversas instituições públicas, terceiro setor e governo ainda permanece profundamente influenciado pelo holograma criado na época das capitanias hereditárias. O jovem brasileiro tem na verdade três desafios em relação à questão da liderança. Primeiro ele precisa migrar de um paradigma de líder controlador. Segundo, precisa ser muito contra-intuitivo num país em que o conceito de liderança no senso comum é pouquíssimo eficaz, sem o uso da força bruta, da hierarquia, do discurso vazio e da posse de um ‘feudo’ próprio.  E terceiro, se for líder mesmo, vai ter que criar as suas próprias oportunidades, sabendo trazer as pessoas para sua área de influência, não pela arrogância, mas por sua consciência dos fatores globais que moldam a percepção dos indivíduos.