Nessa semana do Dia do Professor, acabei tocando no assunto da qualidade da educação em uma de minhas conversas por e-mail com um grande colega e professor de filosofia da UniRio, Nilton Anjos. Andei ouvindo alguns professores reclamando da queda da qualidade no ensino superior. Me questionei sobre isso. Mandei um e-mail pro Nilton, e ele me deu essa resposta que achei interessante compartilhar com os colegas que frequentam esse blog. Mais uma vez obrigado, Nilton!
“Caro Tiago,
acredito que como todas as discussões que se dispõem teoricamente essa também percorre diversos matizes. Inicio com sua segunda questão: de fato, houve e está havendo uma certa democratização do acesso à educação formal do ensino básico ao universitário. Em relação à educação formal nunca serei contrário e até acredito que o plano nacional de educação não está equivocado em torná-la obrigatória até o fim do ensino básico. Feliz ou infelizmente, a pior escola ainda será mais interessante do que deixar um grande contingente de jovens soltos ao vento. Contudo, quanto a isso, ainda vivemos no Brasil diante de dois problemas: primeiro, muitos jovens ainda não estão na escola e segundo, para grande parte dos que estão a escola ainda não é de fato um espaço significativo. Moral da história: muitos ainda não têm o acesso e dos que tem a grande maioria não tem interesse por ela.
De qualquer maneira, ao aumentar o acesso, multiplicaram-se os “gastos” e o Estado ainda não consegue gerenciá-los dignamente, o que gera um outro problema: uma massa de alunos que necessita de uma massa de professores que, por sua vez, também não tiveram ou não aproveitaram o seu processo de formação. O resultado é que professores mal formados começam a lecionar sem saber o que e nem por quê.
Parece óbvio que isso se torna um ciclo vicioso que será percebido também pelos professores universitários. Pense num tubo de ensaio que retenha mais ou menos 1/2 litro de água e, suponhamos que ele esteja praticamente cheio: essa era a imagem dos alunos e professores universitários. Poucos alunos e poucos professores: nível, supostamente, alto. Pegue a mesma quantidade de água, quebre o tubo de ensaio e jogue-a numa bacia dessas utilizadas para lavar arroz. Jogue aquela água dentro da bacia: nível baixo. Muitos ou poucos professores para muitos muitos alunos. Isso é um dado.
Como afirmou o ministro da Educação, o Brasil já tem a resposta de como fazer uma escola pública de qualidade: é só você ver a experiência das escolas federais regulares ou técnicas. Quase todos os professores possuem pós-graduação, dedicação exclusiva, grupo de apoio (pedagogos, psicólogos, tecnólogos etc) qualificados. Contudo, isso é muito muito caro. Como democratizar o que é caro? Esse é um problemão para se resolver, pois para alguns teóricos, o caro é raro e sua disseminação ou democratização levaria, consequentemente, a um baixo nível.
Outras duas facetas do problema: a vinculação equivocada de educação básica com o ensino universitário. Como se o processo do ensino só pudesse descambar necessariamente nisto. Acredito que quanto mais plural for o ensino básico, melhor ele será. Precisamos de técnicos, de especialistas etc; mas também precisamos de artistas, artesãos etc. Portanto, muitos alunos chegam na universidade sem que tivessem que estar lá. O nível sempre baixa quando não temos interesse verdadeiro na discussão ou com o lugar onde estamos. O Chile optou em investir boa parte de sua verba de educação na educação básica e parece que tem colhido bons frutos por essa opção. Quanto a isso, Cuba também é um bom exemplo. A segunda faceta é que se estiver certo que vivemos numa era da informação disseminada e, como ela, confundiu-se com conhecimento, a atitude mais comum é que as pessoas por estarem informadas pensam que são portadoras de um conhecimento qualquer e, por isso, se abrem menos para o processo lento do conhecimento. Estudam achando que já sabem do assunto, ou seja, não estudam. Em contrapartida, a educação formal ainda está tendo muita dificuldade em dialogar com este mundo informativo, noutras palavras, os centros de saber – que em tese já não podem ser centro – não se adaptaram às transformações que o mundo de conhecimento informal dispôs. Ou seja, os professores ainda possuem técnicas mentais de conhecimento que não se coadunam com a ligeireza do mundo em que vivemos: métodos antiquados, um certo esnobismo em saber alguma coisa, um incerto preconceito com quem não se interessa com o conhecimento formal etc.
Acredito, e aí chego ao seu primeiro questionamento, que é perceptível que o nível baixou se compararmos ao elitismo anterior. E, a partir disso, minha resposta é dúbia: o acesso não pode ser negado a quem quer que seja, mas o acesso deve ter uma sinalização. Como nas estradas: não é porque tem uma placa sinalizando “Belo Horizonte” que eu tenho que segui-la, pois eu só precisarei segui-la se sei mais ou menos o que vou ou o quero encontrar em Belo Horizonte. Mas, de qualquer maneira, a estrada até lá é bom que exista.
Em síntese, penso que são três problemas: as políticas públicas para a educação formal que exige um gerenciamento monstruoso nas atuais circunstâncias; a inadaptação do modelo formal de educação às exigências de um mundo informativo e, por fim, a confusão entre o acesso e a obrigação de segui-lo.
Nilton
Obs. o que se tem dito no meio universitário é o seguinte: ao finalizar o mestrado o pós-graduando tem a sensação de que finalmente fez uma graduação; ao terminar o doutorado, de que fez o mestrado e, por isso, criou-se inclusive os estudos pós-doutorais, já que o aluno só se sentirá doutor ao continuar estudando. Os professores do mestrado gostariam de receber na graduação os alunos que eles recebem no mestrado. O inusitado dessa história é que geralmente um professor que termina seu doutorado teria muito a contribuir na educação básica, contudo, a grande maioria não a quer, principalmente, em função do salário. Se tivéssemos professores com o tempo de estudo que se exige para se conseguir um doutorado, lecionando na educação básica, certamente as escolas melhorariam muito. Mas, coloque no papel quanto não custaria esse investimento. E é isso que o Estado não tem ou não quer ter para investir. Imagina você dando 16 aulas por semana para o ensino fundamental recebendo, por ser dedicação exclusiva, 7.300 reais brutos no “início de carreira” e, tendo 24 horas por semana para planejar suas aulas e participar de congressos ou pesquisas. Talvez você nem fosse querer tanto dar aulas na Universidade. Na Espanha um professor do ensino fundamental ganha mais ou menos 2200 euros e o universitário 2700. A diferença é muito menor e o professor pode de fato escolher onde ele se sentirá ou sentiria melhor em lecionar.
Mas, apesar de tudo, ainda tenho esperança de que o Brasil vá revertendo pouco a pouco esses problemas e, individualmente, temos que nos certificarmos de que as bolsas de possamos receber para estudar não devem ser interpretadas somente como um mérito pessoal, mas também, como parte de um jogo ético-político que precisamos contribuir. Ou seja, se é um investimento do Estado é preciso que o beneficiemos de alguma maneira, na “pior” das hipóteses colocando nossa cabeça para pensar em soluções viáveis.”