Em minhas leituras, fiquei espantado com esse relato do pesquisador Roberto Vilela que fazia um trabalho de campo decorrente de sua pesquisa sobre desigualdades urbanas e desigualdades educacionais.

Enquanto tentava tirar fotografias da fachada de uma escola pública que fica encravada dentro de um condomínio residencial da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, ele foi abordado por seguranças armados. Veja o relato:

“Separei um tópico especial para falar sobre as fotos, pois, com total certeza, foi a situação mais tensa que passei em campo. (…) No dia 17 de janeiro de 2006, terça-feira, fui ao condomínio munido de uma câmera digital e comecei a fotografar a escola. (…) me dirigia ao carro para ir embora, passei novamente em frente a escola (que estava fechada), e resolvi parar para tirar uma última foto de sua fachada. Fiz a foto, e quando estava guardando a câmera senti uma mão em meu ombro. Virei para ver o que era, e me deparei com um dos seguranças do condomínio. Este, com um semblante fechado, me inquiriu: “Qual o motivo dessas fotos que você está tirando?”. Lhe

expliquei que se tratava de uma pesquisa da UFRJ (…). Nessa fração de segundos em que terminei de falar e que ele ia se pronunciar novamente, um outro segurança fala pelo walk-talk com ele: “Já

tomou a máquina do cara?”. Quando ouvi aquilo fiquei muito nervoso, com muita raiva, e falei com ele: “Isso aqui é um espaço público, vocês não podem tolher a entrada de ninguém aqui, nem de

tirar fotos. Não estou fazendo nada demais, só estou tirando fotos do exterior da escola para concluir um trabalho de pesquisa”. Ele me respondeu: “É que uma moradora reclamou agora lá na guarita que tinha uma pessoa perto da creche tirando fotos, aí eu vim ver o que era. Você ainda vai tirar mais alguma foto?”. Respondi-lhe que não, que aquela tinha sido a última foto. E ele emendou: “Então sai fora logo antes que o administrador chegue aqui, por que aí vai sujar pro teu lado!”

Fonte: SANT’ANNA, Maria Josefina Gabriel(org), Relatório qualitativo da pesquisa, Livro digital – relatório geral da pesquisa, 2009.