As pessoas não só acreditam mas se sentem seguras com sua visão de ciência em que os cientistas são homens, brancos, membros de uma elite, individualistas em suas ações e produções. Não raro elas vêem o ponto de vista religioso como um empecilho moral para o progresso científico. É o que fica bastante evidente e duas grandes pesquisas sobre a percepção pública acerca da ciência e da tecnologia

Empresas com alcance global, gigantes do setor de tecnologia da informação abusam na construção desse mito. E as ações dessas empresas variam conforme o comportamento dessa imagem. E não por acaso. Embora o mercado financeiro seja quase sempre especulação, é importante destacar que as pessoas tem nas tecnologias da informação e depois na medicina a sua maior aproximação com a noção de ciência. Que no caso seria uma “versão aplicada” de uma pretensa ciência pura. 

Outro ponto curioso é a pequena ligação que as pessoas fazem entre progresso científico e progresso social. Acredita-se muito na capacidade da ciência descobrir a cura de uma grande doença, mas a relação entre essa cura e o progresso econômico e social como eliminação da fome e da pobreza é pequena na cabeça das pessoas. É como se fome e pobreza fossem questões políticas e a cura de uma doença apenas uma questão técnica.

Ao mesmo tempo em que as pessoas desconfiam profundamente dos políticos elas acham que falta mais investimentos públicos por parte de um Estado, que no caso do brasileiro, tem se destacado por uma presença cada vez mais sufocante em esferas como ciência, família, economia, religião, política, direito, sexualidade etc.

A ciência começa quando temos dúvidas e passa longe de pensamentos maniqueístas que se realizam em mitos de que ela encontra limites na “moralidade” e nos “dogmas” religiosos. Como se a história da ciência tivesse começado no século XVII, como se a Revolução científica fosse uma revolução de ateus, como se a ciência fosse amoral e sem dogmas. Como se a ciência fosse uma construção apolítica. Me pergunto se as críticas à teologia, que também é ciência, é história, é política óbvio, não surgem por seus questionamentos acerca de uma ciência ignorante que busca ser hegemônica e que tem a ridícula presunção de ter a palavra final.

Ministério da Ciência e Tecnologia. Percepção Pública da Ciência e Tecnologia. Departamento de Popularização e Difusão da C&T. Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social. www.mct.gov.br/index.php/content/view/50875.html, obtido em 07/09/2007.

VOGT, C. e POLINO, C. Percepção pública da ciência: resultados da pesquisa na Argentina, Brasil, Espanha e Uruguai. Campinas. São Paulo: FAPESP, 2003.